Infantaria japonesa em Cingapura


Artigos     Busca de artigos     Sugira um artigo  

Você está em: Home-page » Artigos do front » Artigo selecionado   

  Sobre a lista
  Novidades do site
  Newsletter
  Links de guerra
  
  Cronologias
  Armamentos
  Artigos do Front
  Relatos
  Bibliografia
 
  Enquetes
  Sua opinião
  Entre em contato

Cadastro na lista

Nome:

E-mail:


Artigo selecionado

Os Olhos dos Pracinhas
Com a 1º Esquadrilha de Ligação e Observação na Itália - Parte 2

O bombardeio em Montese pela artilharia está entre os mais pesados da campanha da Itália. Não apenas os aviões da ELO atuavam regulando o tiro dos canhões. Em Sassomolare, a leste da cidade é possível ver boa parte de Montese. Lá ficou um posto de observação do próprio General Mascarenhas e ali também estavam observadores da artilharia.

João Ferreira Albuquerque segundo sargento lembra que pouco antes do ataque a Montese eles estavam sendo alvo da artilharia alemã. Bastou chegar o avião da ELO que os alemães pararam de atirar revelando a fria e letal eficiência do sistema, foi uma rápida troca de mensagens com o observador aéreo a respeito de um comboio alemão avistado. Em pouco tempo o observador indicou as coordenadas, pediu fogo e minutos depois vinha à conclusão: “ótimo cumprido o objetivo”. Um comboio de veículos alemães tinha deixado de existir.

A frente finalmente se arrebentava e começava a perseguição do inimigo. No dia 26, a FEB elimina um bolsão de resistência alemão em Collécchio, a sudoeste de Parma. No dia seguinte a própria ELO já se muda para Montecchio Emiglia, de onde participa dos atos finais da batalha, incluindo a rendição de numerosas tropas alemãs e italianas. Em Fornovo di Taro, um pouco ao sul de Collécchio, 14.779 prisioneiros alemães e italianos foram feitos por soldados brasileiros, a maioria da 148º Divisão de Infantaria Alemã.

No dia 2 de maio cessa a resistência alemã no norte italiano. No dia 4 os Exércitos aliados na Itália entram em contato, através do passo Brenner, com tropas vindas da Áustria. Em 8 de maio de 45 os alemães se rendem incondicionalmente em todo o continente.

Vinda à paz a ELO continua voando, transportando correio e pessoal. A Esquadrilha foi para Piacenza, em 4 de maio: depois para Portalbera, perto de Milão em 9 de maio e finalmente para Bérgamo em de junho. Em seguida a ELO foi rapidamente dissolvida e seu pessoal voltou seja para o Exercito seja para o 1º Grupo de Caça no caso dos aviadores.

O veterano piloto de caça e hoje Brigadeiro Rui Moreira Lima, autor do clássico Senta a Pua!, sobre a atuação do grupo de caça na Itália, dedicou um capítulo do seu livro para a ELO, “essa desconhecida”. Ele ficou indignado com o que aconteceu com a esquadrilha, “a FAB jogou pela janela a experiência adquirida com grande sacrifício nos campos de batalha pela 1º Esquadrilha de Ligação e Observação. O estranho é que a pequena Unidade foi criada por um Aviso do Ministro da Aeronáutica, em 20 de julho de 1944, e extinta por um boletim da Artilharia Divisionária do Exército.”

Regressaram ao Brasil e só na década de 50 a FAB voltaria a dispor de uma outra ELO. Os aviões tiveram vários deles um destino digno das origens da Esquadrilha, composta por reservistas, formados em aeroclubes civis. Segundo o pesquisador Carlos E. Dufriche, um dos mais dedicados especialistas na história da aeronáutica brasileira, os tecos-tecos da ELO foram remontados no país pelo Exercito e mais tarde entregues a FAB. Foram parar, no começo da década de 60 em aeroclubes. O L-4H número de série americano 4479995, matricula FAB 3073, virou o civil PP-GZH no aeroclube de Nova Iguaçu (RJ); o 448009 FAB 3072 passou a ser o PP-GZP em Nova Iguaçu; o 4479943, FAB 3079, se tornou o PP-GZQ, mas provavelmente se acidentou antes de ir a um aeroclube; o 4479982, número FAB desconhecido, virou PP-GZR e foi para Taubaté (SP); o 4479987, FAB 3077 foi o PP-GZS, em Barbacena (MG); e o 4479993, FAB 3076, recebeu o a matrícula PP-GZT em Paracatu (MG).

Desprezados pela FAB, sequer um deles preservado no Museu Aeroespacial do campo dos Afonsos, os teco-tecos pelo menos tiveram uma aposentadoria digna. Os aviadores que ajudaram a formar eram automaticamente a reserva da FAB, do mesmo modo que a maioria daqueles que os pilotaram na Itália.

A palavra final sobre a ELO merece ser do único jornalista que voou com eles, dono do texto mais emotivo entre todos os que escreveram sobre a FEB. Segundo Rubem Braga, “o teco-teco merece a ternura dos correspondentes porque tem isso de parecido com eles, nesta guerra cheia de armas de todos os calibres, não tem arma nenhuma.”

A técnica de regulagem de tiro consistia em localizar o alvo em uma carta quadriculada e passar as coordenadas por rádio para a câmara ou central de tiro das baterias, onde os canhões recebiam os dados para serem apontados. O observador pede então fogo para “enquadrar” o alvo e tiros longos e curtos, à direita ou à esquerda. As primeiras granadas eram fumígenas para facilitar a visualização. Acertando o alvo entra em ação o resto da bateria, cada uma com 4 peças.

Um artilheiro que trabalhava calculando os tiros depois se tornou critico literário e professor da Universidade de São Paulo, o então sargento Boris Schnaiderman. Sua experiência pessoal é mais um bom exemplo de como o Exército teve de mudar. Antes da FEB ele foi instruído com normas que seguiam a tradição francesa. “Eu aprendi a lidar com o canhão de 75 mm, o canhão clássico da Primeira Guerra.” De repente Boris tinha vários obuses 105 americanos nas mãos e outro sistema, mais moderno e científico, para fazer fogo. Antes os cálculos de tiros eram feitos pelos oficiais. Depois havia uma central de tiro “um grupo de sargentos e cabos que calculava os tiros”. Assim como Elber. Boris foi ao primeiro escalão mas sua instrução de tiro no “American Way” só foi feita na véspera de combate “e muito pouco, e muito mal dada. Fui aprender em plena ação.”

Qualquer semelhança com o pessoal da ELO não parece ser mera coincidência.

A esquadrilha era uma espécie de legião estrangeira, reunindo filhos de imigrantes de vários países. Clapp de origem americana, Fleming inglesa e Bittar árabe etc. Havia até um filho de alemão, Klotz, do lado materno, sua família incluía gente que lutara na Guerra do Paraguai. Klotz de vez em quando conversava com prisioneiros alemães. Um deles, um oficial, disse que os alemães conseguiam pelo padrão dos tiros da artilharia aliada reconhecer qual a sua origem. Os canhões gastos dos britânicos resultavam em tiros dispersos. Tiros concentrados e intensos eram obra da riqueza americana, com seus canhões novinhos e abundância de munição. E poucos, mais precisos tiros, era trabalho de brasileiros. Fácil de entender. A FEB também dispunha de equipamento novo e seu pessoal tinha um padrão de treinamento bom. Mas acima disso, o que contava era o velho hábito da economia de um Exercito acostumado a se exercitar com pouca munição. Cançado lembra de um capitão da artilharia que reclamou a um tenente observador que pedia mais tiros: “Economia de munição, tenente, economia de munição gritava ele no rádio, Cançado preferia o ditado americano: ”Nós levamos 20 segundos para produzir 100 granadas, mas um soldado leva 20 anos para ser produzido”.

Nem sempre os contatos de Klotz eram com alemães prisioneiros. De vez em quando eles podiam entrar na mesma freqüência de radio. O brasileiro respondia na hora com vários palavrões na língua de seus ancestrais.

Em 19 de março de 45 a ELO foi um pouco mais para a frente deslocada para Porreta Terme. Em abril deveria acontecer a ofensiva final, com a primavera e o degelo permitindo a movimentação mais fácil dos exércitos. Os dois Exércitos aliados o 5º Americano e o 8º Britânico se puseram em marcha. De 14 de abril a 2 de maio de 1945, as principais áreas do norte da Itália foram liberadas dos alemães.

Em 14 de abril foi o começo para a FEB da maior batalha e a mais sangrenta lutada por brasileiros desde a Guerra do Paraguai a tomada de Montese. Ainda hoje é possível ver marcas de balas na fonte da praça principal da cidade.

Ao contrário do Castello, onde a excelente camuflagem dificultava descobrir o inimigo, em Montese era fácil ver a movimentação das tropas nossas e se via o fogo dos alemães afirma Darci. Também houve um bom numero de missões feitas antes do ataque Cançado se lembra de uma no dia 10 de abril que durou uma hora de raro vôo noturno.

Na batalha por Montese foram envolvidos pela única vez, simultaneamente, varias unidades de artilharia, o esquadrão de reconhecimento e os 3 regimentos de Infantaria da FEB. Houve mais de 453 baixas.

A artilharia procurou dar o máximo de apoio. Isso significou que os teco-tecos receberam ordens para voar baixo. A idéia era localizar toda e qualquer arma inimiga, qualquer metralhadora ou morteiro que pudesse barrar o avanço brasileiro.

Vários pilotos e observadores da ELO se revezaram no arriscado vôo sobre aquele monte sendo atacado, “veio ordem para baixarmos, estávamos praticamente a 700 metros de altitude. Nós estávamos sendo usados como isca. De vez em quando eles arriscavam um tiro de 88. Era uma bolota preta de fumaça, uns 300 metros na frente do avião,” diz Darci.

“Abandonamos o limite de segurança e passamos a regular tiro até em cima de morteiros” declara Elber. Perseguidos diariamente pela aviação aliada, os alemães se tornaram mestres em camuflagem. Certa hora Elber viu chamas saindo de dentro de um cone de ferro, pediu fogo de artilharia em cima do alvo, e os tiros pararam.

Os alemães perceberam o risco de ter aqueles aviãozinhos por cima. “Começamos a descer e a frente ficou toda enegrecida de fogo antiaéreo” afirma Elber.

A infantaria tinha natural curiosidade por aqueles aviões que voavam devagar sobre suas cabeças a caminho das posições alemãs. “Todo dia de manhã eles estavam lá. Era impressionante com qualquer tempo o bichinho estava lá, um teco-teco safado”, diz Rômulo França, que em 1944-45 era um cabo na 1º RI, ocupado em atirar com morteiro sobre os alemães entrincheirados no Castello. “A gente sempre via o aviãozinho lá em cima e perguntamos pros oficiais o que diacho era aquilo”. Devidamente informados, Rômulo se lembra de que chegou a ver as nuvens negras da artilharia antiaérea alemã perseguindo os teco-tecos. “Esses caras tem muita coragem”, era o comentário geral.

O resultado da participação da ELO foi uma ajuda importante para a tomada de Castello que muito mais do que sua importância tática, restrita aquele pedaço da frente, foi um símbolo para a FEB. Toma-lo foi como um ritual de passagem. Depois viria a batalha mais sangrenta da FEB a tomada de Montese, já na ofensiva final que terminaria a guerra na Itália.

Nenhum avião foi abatido em toda a história da ELO, o que mostra a sorte dos seus 11 pilotos. Não havia ameaça séria de caças alemães, basta verificar que o Grupo de Caça não chegou a lutar com caças inimigos, e mesmo outros esquadrões americanos tiveram raros contatos. Quanto à artilharia antiaérea, a flak (abreviatura alemã para FliegerAbwehr Kanone, canhões antiaéreos), o risco era perene, embora com as ressalvas de que nem sempre interessava ao inimigo expor-se a retaliação.

Foi uma agradabilíssima surpresa
“antes de irmos nos diziam que de cada 10 pilotos de observação, apenas um voltava vivo”
, afirma Cançado.

“Dos nossos 10 aviões tivemos dois acidentados e recuperados. Devolvemos os 10 que foram levados para o Rio no final da guerra”, diz o então mecânico Fausto Villanova, um dos que cuidavam com carinho dos teco-tecos e um dos responsáveis por todos os pilotos e observadores voltarem é e salvos.

Por um daqueles mistérios incompreensíveis um oficial americano que servia de tradutor para o comando brasileiro e depois se transformou em um diplomata polemico, Vernon Walters, escreveu que a ELO tinha perdido aviões destruídos em terra pela artilharia alemã. Nada disso aconteceu, apesar de a distância da frente em relação aos campos de pouso da esquadrilha permitir bombardeio pela artilharia pesada.

Voar baixo significava que todo o arsenal alemão podia se arriscar a acertar os L-4. Os pilotos podiam ouvir até balas de fuzil zunindo em torno, Darci lembra um vôo com o tenente K. O Connor, da artilharia inglesa, que pediu para voar mais baixo, nas imediações de Bolonha. Muitos dos canhões ingleses vinham atirando desde a África do Norte. Estavam gastos e o tiro saia desregulado “Quando eu abaixei o que eu tomei de tiro”, diz Darci.


Mais uma vez se insistiu em um ataque frontal. Também fracassou outro ataque em 12 de dezembro que durou apenas 5 horas antes de a retirada ter sido feita. Chuva, lama, frio e céu encoberto conspiraram contra o sucesso. Com o céu encoberto os caça-bombardeiros não poderiam ajudar e essa era a única área em que os aliados tinham supremacia absoluta na Itália, nem a ELO poderia corrigir o fogo dos canhões. O ataque de 12 de dezembro resultou em 145 mortos e feridos. A ELO participou observando antes e depois do ataque.

Às vezes a observação do alvo era feita de dia, mas o bombardeio de artilharia ocorria de noite a partir das coordenadas anotadas.

Um dos problemas para os ataques ao Castello em 1944 era a falta de cobertura de vegetação. O escritor e então correspondente Rubem Braga olhou o Castello do alto, a bordo de um dos teco-tecos da ELO. Ele reparou que do lado alemão havia um denso pinheiral com seu verde escuro, contrastando com o nosso lado árido e liso onde qualquer ataque tinha de ser feito sob os olhos e o fogo do inimigo entocado em suas fortificações lá em cima. Perguntei a mim mesmo se algum dia nossos homens galgariam aquela montanha maldita.

O ataque coincidiu com a visita do ministro da Aeronáutica Salgado Filho, ao quartel general do General brasileiro Mascarenhas de Moraes em Porreta Terme ciceroneado pelo comandante do 4º Corpo General Wllias D. Crittenberger. Quando o avanço começou a andar mal o clima no Q.G. ficou decididamente pesado.

A visita de salgado Filho teve um ponto positivo para o pessoal da ELO cinco dos aviadores: Cançado, Bittar, Fleming, Clapp e Winter foram para a Itália como Sargentos-aviadores. A pedido de Belloc o ministro promoveu-os a aspirantes.

Quando houve este ultimo ataque fracassado ao Castello, a esquadrilha já estava em uma nova base, mais perto da frente de combate em Suviana, onde chegaram a 10 de dezembro. Ficariam nesta pista até a metade de março de 45.

Cada Grupo de Artilharia da FEB tinha dois aviões para regulagem de tiro. Os outros dois serviam ao quartel general da artilharia divisionária. De modo geral, cada um dos grupos de obuses 105 apoiava diretamente um dos três regimentos, ficando a artilharia mais pesada calibre 155 para o apoio ao conjunto.

Além dos 11 pilotos da ELO, que voaram 683 missões operacionais segundo anotado diligentemente por Cançado em um livro, hoje no acervo do Museu Aeroespacial, houve uma missão feita por um piloto do grupo de Caça, o aspirante-aviador da reserva, Fernando Pereyron Mocellin. Os recordistas foram Leite e Fleming que voaram cada um 70 missões.

Já os “passageiros” foram em numero maior. Foram 11 oficiais do Exercito a fazer vôos regularmente alem de quatro oficiais ingleses e ocasionais pilotos da própria ELO. O comandante da artilharia da FEB General-de-brigada Oswaldo Cordeiro de Farias, fez um vôo registrado como “missão” assim como Rubem Braga.

O inverno italiano de 44-45 foi um dos mais rigorosos da década. Tropas vindas de um pais tropical tinham de cavar buracos na neve, sair em patrulhas e combater sobre o gelo. A temperatura chegou a cair para 20 graus abaixo de zero.

Os teco-tecos também sofreram. Eram pouco mais que aviões de turismo, arrancados da vida civil como seus pilotos reservistas. “Havia muito gelo na pista, era um grande risco de derrapagem”, lembra o paulistano Klotz.

“O avião era sem aquecimento, o motor tossia com o gelo” declara Darci.

Foi a partir de Suviana que apoiaram a tomada do Castello em 21 de fevereiro, um dos momentos de maior risco para os teco-tecos.

Desta vez o ataque foi melhor planejado, sem a idéia suicida de atacar frontalmente um inimigo bem posicionado e com campo de tiro livre. O ataque fazia parte de uma operação que incluía uma divisão de elite americana, a 10º de Montanha.

Em 16 de fevereiro o 5º Exército ordenou ao 4º Corpo que fizesse ataques limitados para melhorar as posições aliadas a oeste da rota 64, a rodovia que corre na direção norte-sul e passa por Bolonha. A rodovia era importante para o abastecimento e podia ser atingida pelos alemães posicionados nas alturas. Seriam os ataques feitos aos montes Belvedere na primeira ação de vulto pela 10º e Castello, em mais uma tentativa da FEB.

O ataque começou as 05h30minh da manhã do dia 21 de fevereiro. Doze horas e meia depois os primeiros soldados do 1º RI atingiam o topo do monte após andarem e subirem uma distancia de 2,5 km desde o ponto de partida.

Ao contrário dos avanços temerários de antes quase que a peito aberto, desta vez a tropa soube progredir cuidadosamente, buscando cobertura e cada passo evitando ataques frontais e tentando atingir o inimigo pelo flanco.

Fonte deste artigo: Contribuição de Madson doVale


Links Relacionados ao Artigo

Artigos do Front : Os Olhos dos Pracinhas - parte 1
Armamentos : Piper Cub

Retorna à anterior

 



Avião da Elo sobre as montanhas


Piper da ELO no campo de pouso


Pilotos e Rubem Braga


Colocando espoletas nas granadas


Monumento em Monte Castello